A inteligência artificial generativa tende a assumir parte das tarefas repetitivas que historicamente serviam de porta de entrada na advocacia, como pesquisas iniciais, minutas-base e revisões de documentos. Isso não elimina a necessidade de advogados(as) juniores, mas obriga os escritórios a redesenhar a forma como esses(as) profissionais aprendem e se desenvolvem.
Durante muito tempo, a formação de um(a) advogado(a) aconteceu na prática: era fazendo, e refazendo, o trabalho operacional que o(a) júnior desenvolvia repertório, aprendia a reconhecer erros e construía critério. Com a IA incorporada à rotina das bancas e departamentos jurídicos, surge uma pergunta de gestão: se a tarefa de entrada muda, como o aprendizado acontece?
Por que esse tema é uma questão de gestão de pessoas, e não só de tecnologia
A discussão sobre IA no Direito costuma girar em torno de produtividade e substituição. Mas existe um ângulo menos visível: o desenvolvimento de carreira. Se o(a) júnior deixa de executar certas atividades, é preciso garantir que ele(a) continue exposto(a) ao raciocínio jurídico que essas atividades ensinavam.
Em outro artigo, discutimos se o avanço das IAs representa o fim dos cursos de Direito. A conclusão foi que a formação não desaparece, ela se transforma. O mesmo vale para a formação dentro dos escritórios.
O que os dados do mercado mostram
O uso de IA já faz parte da rotina da advocacia brasileira. Segundo o Relatório sobre o Impacto da IA no Direito 2026, divulgado pela OAB SP em parceria com a Trybe, o Jusbrasil e o ITS Rio, 77% dos profissionais afirmam usar a ferramenta com frequência, ante 55% no ano anterior. A pesquisa reuniu mais de 1.800 operadores do Direito, 16% a mais que na edição anterior. Segundo o Jornal de Brasília, em texto da Folhapress, o estudo tem nível de confiança de 95% e margem de erro de dois pontos percentuais.
O mesmo levantamento aponta que 91% perceberam melhorias na qualidade técnica do trabalho final, mas que apenas 34% das organizações jurídicas possuem orçamento dedicado à contratação de ferramentas ou à capacitação em IA. Segundo o Canaltech, 51% das organizações ainda não têm regras ou planos para adotar IA e, entre os profissionais que não usam a ferramenta, 78% nunca buscaram capacitação. Esse contraste sugere que a adoção avança mais rápido do que o investimento em formação, e é nesse intervalo que o desenvolvimento dos(as) juniores precisa de atenção.
O risco de formar profissionais sem repertório
Um(a) profissional que apenas valida respostas geradas por uma ferramenta, sem ter construído antes o raciocínio por conta própria, pode ter dificuldade para identificar uma informação imprecisa ou uma argumentação frágil. O risco não está na ferramenta, e sim em usá-la sem base para avaliá-la.
Três ajustes práticos para escritórios e departamentos jurídicos
- Revisão crítica como exercício de formação. Em vez de proibir ou liberar o uso de IA sem critério, a liderança pode pedir que o(a) júnior documente o que verificou, o que corrigiu e por quê. A revisão passa a ser uma etapa de aprendizado.
- Exposição antecipada a atividades de maior complexidade. Com parte do trabalho operacional automatizado, é possível acompanhar reuniões, participar de discussões de estratégia e conhecer o cliente mais cedo, desde que haja supervisão.
- Mentoria estruturada. A ausência de tarefas formativas tradicionais aumenta a importância de um(a) mentor(a) que explique o raciocínio por trás das decisões. Isso depende de lideranças jurídicas preparadas para ensinar, não apenas para delegar.
O que o RH jurídico pode fazer
- Revisar a descrição de cargos e os critérios de promoção para incluir competências como análise crítica, uso responsável de tecnologia e comunicação com o cliente.
- Incluir o tema nos planos de desenvolvimento individual.
- Acompanhar indicadores internos, como tempo até a autonomia, retenção e feedback das equipes, para entender se o modelo de formação está funcionando.
- Reforçar a comunicação sobre trilhas de carreira, tema diretamente ligado ao employer branding do escritório.
Perguntas frequentes
A IA vai substituir advogados(as) juniores? O mais provável é que ela altere as atividades que compõem a função. O trabalho exige interpretação, ética e relacionamento com o cliente, habilidades que continuam sendo humanas. O desafio é formar profissionais capazes de exercê-las.
Como desenvolver um(a) júnior sem as tarefas operacionais tradicionais? Com mentoria estruturada, revisão crítica documentada, exposição antecipada a casos reais e feedback frequente.
Quem é responsável por esse desenvolvimento: o RH ou os(as) sócios(as)? Ambos. O RH desenha trilhas e indicadores, e a liderança jurídica conduz o ensino no dia a dia.
A pergunta estratégica não é se o(a) júnior vai usar IA. É quem vai ensiná-lo(a) a usá-la com critério e se o seu escritório está preparado para isso.